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Educação financeira para começar no início da vida adulta e levar para sempre

Ajustar as finanças, planejar os gastos e projetar os próximos investimentos é tarefa dura para qualquer um — principalmente em um momento em que a crise financeira obriga a apertar os cintos e a situação do país não permite muitas previsões. Agora, imagine fazer isso pela primeira vez na vida. Disciplina financeira não é fácil para ninguém, mas, para quem está recém entrando na fase de independência financeira, pode ser ainda mais complicado.

De acordo com a última pesquisa sobre o assunto do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), de dezembro de 2016, um terço dos jovens brasileiros (32,2%) admite não ter qualquer controle sobre suas finanças. A justificativa mais usada é a falta de hábito, em 22% dos casos. Para o professor de Economia da UFRGS João Caldeira, o descontrole financeiro é uma epidemia nacional, que se explica pela ausência da cultura econômica:

— Nós, brasileiros, temos muito pouca educação financeira. Nossa formação é precária e isso dificulta na hora de administrar os gastos. Para quem está saindo de casa ou entrando no mercado de trabalho, sem muita experiência de vida, isso acaba tornando o ambiente ainda mais propenso a riscos.

Entre os especialistas, como Caldeira, o pontapé inicial é uma unanimidade: colocar no papel o dinheiro que entra e o que sai. Manter a disciplina financeira sem uma noção básica dos ganhos e dos gastos mensais é praticamente impossível, mas um caderno já resolve o problema. O ideal, avalia o professor, é que o dinheiro do mês cubra os gastos e tenha uma folga para investimentos — guardar, seja quanto for, já é fazer mais do que a maioria: outra pesquisa, também da CNDL e SPC Brasil, mostra que somente 41% dos brasileiros termina o mês com dinheiro sobrando. O restante fica devendo ou empata.

Vai caber no orçamento?

A partir daí, é importante analisar quais gastos estão fora da realidade financeira. Em geral, jovens que saem da casa dos pais têm dificuldade em diminuir o padrão de vida, uma necessidade imprescindível para quem vai morar sozinho. Quem tinha plano top de TV a cabo, associação em clube e serviço de faxineira dificilmente vai conseguir manter isso sem o dinheiro dos pais — sob pena de acumular dívidas que podem se tornar uma bola de neve lá na frente.

— É muito comum acontecer um estrago financeiro no início da vida independente. Porque ninguém quer diminuir o padrão de vida, o acesso ao crédito é fácil e o brasileiro tem o estilo de vida consumista. Isso pode acabar sendo perigoso — avalia o educador financeiro Adriano Severo, professor de Economia da Fundatec, que sugere:

— O ideal é não comprometer o orçamento dos próximos meses. Lembrar que, se fizer uma compra em dez vezes agora, vai acabar de pagar na metade do ano que vem. Será que a parcela ainda vai caber no orçamento?

"Cortar é inevitável"

Pode-se dizer que todo brasileiro nasce com a habilidade de se virar em situações adversas entranhada no DNA. É o caso da professora Luana Eckert, 25 anos, que, em meio à crise financeira que vive o país — a mais grave que sua geração já viu —, decidiu casar e comprar um apartamento com o empresário Guilherme Eckert, 27 anos. Para alcançar o objetivo, contou com o controle financeiro do agora marido e diminuiu os gastos.

Quando se conheceram, ela tinha 19 anos, e o jeito que deram para sair das casas dos pais foi ir morar no apartamento de um avô dele — situação que não era a ideal para o casal recém-formado. A partir de uma planilha, em que calcularam gastos e ganhos dos dois, decidiram que era o momento de trocar as saídas no fim de semana por um filme na televisão. No lugar dos jantares em restaurantes, entrou a comida caseira. Assim, em fevereiro deste ano, conseguiram aprovação em um financiamento e realizaram o sonho da casa própria.

— Quando colocamos tudo no papel, vimos que, se quiséssemos comprar o apartamento, não dava para manter o padrão em quase nada. Decidimos que era hora de abrir mão de certas coisas para chegar àquele objetivo. Diminuímos o plano da academia, desistimos de trocar de carro, fomos atrás de apartamentos em outros bairros — enumera a professora, para sentenciar em seguida:

— Cada um tem suas vontades, suas preferências e individualmente vai decidir de onde é melhor cortar. Mas cortar é inevitável.

10 dicas para jovens de 20 e poucos anos

1. Coloque tudo no papel. De um lado: liste todos os gastos fixos do mês (contas, parcelas, dívidas, compras, gastos de fim de semana). De outro, anote quanto entra por mês. O ideal é que o primeiro número seja menor do que o segundo. Abrir uma planilha no Excel ou baixar um aplicativo de controle de gastos no celular também ajudam.

2. Encare a realidade. Como aquele tipo de gente que não vai ao médico porque não quer encontrar doença, é comum não analisar as finanças pessoais por medo de achar um rombo. Quanto mais cedo a situação financeira ficar clara, mais fácil será resolvê-la.

3. Poupe. Pode parecer difícil, até inútil, no início, mas você vai ver a importância no futuro. Quem guarda tem e, em um momento de tantas incertezas na área econômica, é importante ter o mínimo de segurança. No pior dos casos, você vai ter um dinheirinho extra no fim do ano.

4. Evite empurrar gastos para os meses seguintes, seja com empréstimos, com gastos no cartão de crédito ou com cartões de lojas. Com a crise, fica ainda mais difícil saber a situação do futuro, então é melhor tentar manter os gastos no presente — para não tomar sustos no futuro.

5. Aprenda a escolher. Se você gosta de roupas novas e cinema uma vez por semana, talvez tenha que escolher apenas uma das duas opções. Nem todos os luxos são possíveis aos 20 e poucos anos. Aceitar isso vai te ajudar a priorizar o que realmente é importante para você.

6. Estabeleça uma meta. Ter um objetivo a médio ou longo prazo dá sentido à poupança. Guardar dinheiro pensando no gasto futuro faz mais sentido do que parar de gastar por parar. Seja uma viagem, um celular novo ou uma casa própria, ter uma meta pode ajudar na hora de poupar.

7. Aceite a mudança de patamar. Ser bancado pelos pais é um conforto que não vai durar para a vida toda. Se você passou 20 anos acostumado com todos os canais da TV a cabo, o plano mais potente de internet e uma pessoa limpando seu banheiro duas vezes por semana, aceite que tudo isso vai mudar.

8. Aprenda a cozinhar. Faça comida no sábado e guarde para o resto da semana. Leve marmita para o trabalho. O gasto com restaurantes, entregas e aplicativos de comida pode parecer pequeno, mas o acumulado do mês vai assustar. A economia de cozinhar em casa pode te surpreender.

9. Pense no futuro. O professor João Caldeira brinca que, com 20 anos, "é difícil pensar dois meses na frente, imagina cinco anos", mas faça o esforço. Nem tudo é imprescindível para agora e ter consciência disso pode ajudar a alcançar algo maior daqui a pouco. Jovens são impulsivos. Tente não ser.

10. Cautela. Está aí algo que nunca fez mal a ninguém, assim como caldo de galinha. O seguro morreu de velho. Os ditos populares são infinitos e estão corretos: dar uma segurada nos gastos vai ter resultado positivo no futuro, principalmente quando se está dando o pontapé inicial na vida financeira. 

 

Fonte: Zero Hora